quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Questões Sociais em Análise do Comportamento: "Sim, nós também intervimos aqui!"


Esta postagem também poderia ser chamada de "Psicologia Social em Análise do Comportamento", no entanto, preferi este nome mais genérico devido a própria dificuldade de definir com precisão o que é ou não Psicologia Social, bem como o que é uma intervenção de Psicologia Social.

Mesmo assim, buscarei apresentar que a Análise do Comportamento está envolvida com Questões Sociais e que há produção de tecnologias voltadas para melhoria do bem-estar social.


Estou acostumado a ouvir comentários que se referem a Análise do Comportamento como uma abordagem psicológica que não se dedicar a estudar e intervir em contextos sociais, que é uma abordagem psicológica reacionária e mercadológica, que não discute desigualdade social e nem sobre os meios pelos quais possamos alcançar uma sociedade mais equânime.

Contrariando o senso comum de alguns colegas, temos, como exemplo, B. F. Skinner como um psicólogo experimental extremamente preocupado com os problemas sociais de seu tempo. Prova disso é seu artigo intitulado "O que há de errado com a vida no mundo ocidental?" de 1987 (link), no qual ele, por exemplo, analisa o conceito marxiano de Alienação. É importante frisar aqui que, apesar de ter dedicado maior tempo ao refinamento de conceitos behavioristas a partir de pesquisa experimental básica, Skinner foi um teórico muito preocupado com a sociedade em que vivia, apesar de que para outros filósofos e teóricos seus escritos sejam mal compreendidos e considerado por vezes contraditórios, como falar em liberdade junto ao conceito de controle...


A partir da monografia de Martina Rillo Otero, de 1999, intitulada de "Caracterização e avaliação da Psicologia Comportamental Comunitária, através de artigos publicados no JABA entre 1991 e 1999" (link), temos acesso a uma gama de referências de Análise do Comportamento voltadas para atuação behaviorista em comunidades ou frente problemas de preocupação social, como uso e abuso de drogas. Seu trabalho é voltado principalmente para compreensão de como é a atuação profissional do analista do comportamento frente a problemas sociais, ou seja, é um levantamento sobre os contextos e intervenções de Análise Aplicada do Comportamento (AAC) e não só como o psicólogo comportamental interpreta os fenômenos sociais a partir do comportamentalismo.

No artigo de Estevam Colocicco Holpert, de 2004, intitulado "Questões Sociais na Análise do Comportamento: artigos do Behavior and Social Issues (1991-200)" (link) temos uma nova lista de artigos que trata da relação entre o conhecimento Comportamental e questões sociais. Desta maneira, está mais que claro que a Análise do Comportamento está preocupada com problemas sociais e que busca contribuir com tecnologias capazes de transformar a realidade em que vivemos. É irrefutável que há produções científicas voltadas para resolver problemas sociais como há dados sobre a eficácia da intervenção!

Imagem retirada do Google
Segue alguns dos temas tratados nos artigos dos levantamentos bibliográficos acima:
  • Prevenção de crimes;
  • Preservação do meio ambiente;
  • Cuidados com saúde;
  • Promoção de habilidades sociais em comunidade;
  • Promoção de segurança;
  • Avaliação de programas sociais e governamentais;
  • Questões envolvendo comportamento do consumidor;
  • Educação;
  • Economia; e
  • Política em geral.
Além disso temos no Brasil o Laboratório de Análise e Prevenção a Violência (LAPREV) voltado para o estudo e intervenção em cotextos de violência, inclusive violência sexual, cujo trabalho de Otero (1999) apontou existirem poucos estudos publicados no JABA. Podemos ter acesso a algumas publicações da LAPREV no seguinte link. Para além da existência do Laboratório acima, há o trabalho de professores da Universidade Federal do Pará frente a contextos de violência contra a mulher e dependência afetiva. Uma opção, também, é pesquisar os temas apresentados durantes os Encontros Anuais da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC) nos anais disponíveis no site da instituição (link) para ter noção das diversas possibilidades de atuação em contextos sociais que vem ocorrendo.


Podemos levantar algumas hipóteses sobre porquê a Análise do Comportamento não é reconhecida por outros seguimentos intelectuais como sendo um corpo teórico engajado e compromissado com a transformação da condições e problemas sociais que estamos expostos. Segue algumas hipóteses:
  1. Não nos utilizamos em demasia de jargões políticos consagrados pelas Ciências Políticas e Sociais quando analisamos problemas sociais;
  2. Inclusive, o corpo teórico da AC não pressupõe um posicionamento político unilateral, como liberalismo ou estado de bem-estar social;
  3. Porém, subgrupos dentro da comunidade analítico-comportamental podem se posicionar de maneira convencional, como Direita e Esquerda, mas esse posicionamento é uma relação filosófica feita pelos subgrupos e não é intrínseca ao Comportamentalismo;
  4. Ou seja, é um posicionamento a partir do Behaviorismo Radical (braço filosófico de sustentação da teoria Comportamental) e diálogos com outras linhas teóricas, no caso filosofias políticas;
  5. Se a linguagem comportamental é distante da usual utilizada por outros teóricos para explicar o comportamento humano, então há também um distanciamento da linguagem comportamental das demais linguagens de análise política;
  6. Inclusive, a linguagem comportamental não faz apelos estéticos para adesão de seus leitores a suas propostas científicas ou políticas, apenas são apresentadas variáveis e relações de interdependências entre comportamento e mundo baseados em dados;
  7. Sendo assim, a linguagem comportamental evita se utilizar de termos mentalistas como Conscientização para explicar a dificuldade das pessoas se comportarem de modo politicamente ativo;
  8. A linguagem popular pode ser esteticamente atrativa e gerar maior adesão, mas não traz consigo uma proposta de intervenção capaz de intervir diretamente com os problemas sociais. A linguagem comportamental possibilita a interpretação e proposição efetiva de intervenções, já que se baseia em dados científicos e grau de eficácia;
  9. Há uma prática cultural em Ciências Humanas de excluir qualquer explicação científica dos fenômenos sociais e políticos por crer que são explicações incompletas ou abstratas, ou mesmo por preconceitos historicamente reforçados por contextos em que houve mal uso do termo científico a práticas sociais desumanas, como a criação da Teoria da Degenerescência que justificou a segregação social no Brasil (e, de algum modo, podemos dizer que ainda segrega);
  10. Não temos a prática de publicarmos sobre as diversas atuações comportamentais frente a questões sociais em revistas científicas de outras áreas, preocupamo-nos pouco com a divulgação dos nossos dados de eficácia e efetividade de nossa atuação frente a problemas sociais.

Acredito que devam existir outras hipóteses a serem levantadas e cada uma delas requeira maiores esclarecimentos, no entanto, esta postagem tinha como objetivo apenas demonstrar que Analistas do Comportamento tratam de Questões Sociais de maneira compromissada, mas reconhecendo que poderíamos ter um maior número de publicações sobre estes temas e publicações mais significativas para outras comunidades científicas como artigos em revistas de Economia, Biologia, Sociologia e Ciências Políticas.

Acredito que, assim como Skinner diz, os problemas da vida cotidiana são um questões que envolvem a competência e responsabilidade da Análise Aplicada do Comportamento. Sendo assim, é imprescindível que produzamos pesquisas aplicadas, mas não apenas produzir pesquisas aplicadas a esmo. É preciso produzir pesquisas aplicadas diretamente no setting em que ocorrem os problemas sociais e com as populações diretamente envolvidas com os problemas sociais.


Desta maneira, temos diversas dificuldades inerentes a intervir em setting natural:
  1. Muitas vezes os reforçadores disponíveis no ambiente tem maior magnitude do que os reforçadores planejados na intervenção, como comportamento de menor infrator;
  2. As intervenções sociais pressupõe que mais de um sujeito tenha suas contingências modificadas, não bastando intervir, por exemplo, apenas junto a um menor explorado sexualmente, sendo preciso intervir com os exploradores (o que alicia e o que financia);
  3. Os sujeitos envolvidos na intervenção muitas vezes não tem interesse de que ocorram mudanças.
Sobre este terceiro ponto, podemos indicar algum motivos pelos quais há esta Resistência a Mudança:
  1. Às vezes, os sujeitos são inseridos em uma intervenção social por meio de Controle Aversivo, como um mandado judicial para que um menor infrator participe de atividades terapêuticas em um CREAS ou CAPS-ad;
  2. Os sujeitos não estão sensíveis as contingências que controlam seus comportamentos a curto e longo prazo, ou mesmo que nunca foram ensinados a desenvolver comportamentos importantes para a sobrevivência da humanidade, como autocontrole e tomada de perspectiva (que seria explicado de modo simples como colocar-se no lugar do outro);
  3. Há uma Banalização dos problemas e contextos sociais em que o problema ocorre, seja por que a comunidade verbal reforça regras que dizem que "nada vai mudar", seja pelo curto de resposta entre se comportar adequadamente ser maior do que indicar uma frase denotando a terceiros o motivo do problema existir e sua solução, seja pelo fato que de o contexto aversivo esteve presente na história cultural de uma localidade durante várias gerações e a possibilidade de mudança parece improvável.
Sendo assim, este é o desafio deixado a todos nós, novos e velhos Analistas do Comportamento, produzir tecnologias Comportamentais capazes de melhorar o mundo!!!


Que assim seja o ano de 2015!!!

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