quarta-feira, 11 de março de 2015

Fascismo, Obediência e Experimentos Sociais


Há uma série de exemplos históricos que fizeram com que diversos cientistas sociais se preocupassem com alguns comportamentos humanos e buscassem explicações. Por vezes, acontecimentos contemporâneos nos trazem as mesmas. Esta postagem vem falar de alguns experimentos sociais emblemáticos envolvendo este tema e alguns contextos sociais que possam ilustrar o motivo de nos preocuparmos.


Cada um dos experimentos descritos a seguir mereceria uma postagem, mas nos limitaremos a discutir de maneira simples e dialogal, já que o interesse aqui não é uma descrição da rigidez (ou falta) metodológica do experimento ou seu caráter ético. Aliás, se julgarmos a partir das normas éticas brasileiras de experimentos com humanos em vigor, nenhum dos experimentos seria considera ético.

IMPORTANTE: nenhum dos experimentos citados são reconhecidos com experimentos de Análise do Comportamento, mas são experimentos sociais e seguem metodologias de pesquisa em Ciências do Comportamento (pois há mais de um modelo explicativo comportamental).

Stanley Milgran buscou entender se deveríamos chamar a população alemã de cúmplice das atrocidades cometidas em nome do Nazismo. Ele se questionava como seria possível milhões de pessoas não terem conhecimento do que ocorriam nos campos de concentração e como era capaz um ser humano cometer atos hediondos em detrimento de valores individuais (obediência a autoridades, para ser mais especifico).

E = Experimentador; S = Sujeito participante; A = Ator.
Imagem da Wikipédia.
O Experimento de Milgran ocorreram nos anos de 1963, 1964 e 1965 e supostamente mediria os efeitos da punição na aprendizagem do sujeito punido. Em uma sala, deveriam ter três pessoas: o experimentador e dois participantes, sendo que um dos participantes na verdade era um ator, "Senhor Wallace". O participante de verdade não sabia das condições fictícias do experimento. Antes do início do experimento era sorteado quem seria o punidor e o punido. Senhor Wallace sempre saia como punido! Havia uma série de voltagens fictícias que iniciava em 15 volts e terminaria em 450 volts. Senhor Wallace deveria decorar uma série de palavras e repeti-las, sendo que a cada erro receberia um choque. A cada novo erro, a voltagem aumentava em 15. Quando a voltagem chegava próximo a 120, o ator começava a gritar de dor, porém o experimentador solicitava que o participante continuasse a dar os choques usando uma série de argumentos sobre a importância do experimento. O estudo provou que mais da metade dos participantes (65%) continuavam a dar choques no Senhor Wallace, chegando a atingir o valor de 450 volts.

Os dados do experimento por si demonstram como um número expressivo de pessoas podem se comportar de determinadas maneiras por conta da Obediência a Autoridades. Você consegue imaginar algum contexto contemporâneo no qual o experimento citado se assemelharia funcionalmente? Resposta: instituições militares ou com similaridade de modelo de controle social. Para quem tiver interesse, a descrição mais completa que eu disponho pode ser encontrada no livro "Métodos de Pesquisa em Ciências do Comportamento" de Cozby.

 

A Marinha Americana solicitou um experimento que explicasse o motivo pelo qual haviam tantos conflitos internos no sistema prisional da marinha. Philip Zimbardo então formulou um experimento, que viria a ser conhecido como Experimento de Aprisionamento de Stanford. Neste experimento, Zimbardo iria simular uma prisão junto a um grupo de estudantes. Uma parte de estudantes atuariam como carcereiros e outra parte como prisioneiros. As orientações que eram dadas era que não poderia ocorrer violência física, mas os carcereiros poderiam fazer medo e utilizar de outros meios de coação não físicas livremente. O experimento teria um término diariamente e, no dia seguinte, os estudantes deveriam retornar, mas alguns estudantes se voluntariaram a ficar em tempo integral e sem receber financiamento pelas horas extras dedicadas ao experimento. O contexto em que o experimento foi desenvolvido era em 1971, próximo a Guerra do Vietnã, e os estudantes foram vestidos de maneira que havia impessoalidade por parte dos carcereiros e os prisioneiros se sentissem desconfortáveis nas roupas dadas (inclusive parecendo como as vestimentas usadas por prisioneiros orientais). 

 

Em um determinado momento, o experimento saiu do controle. Prisioneiros sofriam e aceitavam tratamentos humilhantes e sádicos, dentre outros detalhes que podem ser vistos no livro de Zimbardo chamado "Efeito Lúcifer", fácil de achar para compra na internet.

A hipótese inicial de Zimbardo se baseava na perspectiva de Lebon de que um indivíduo se tornava despersonalizado em meio a uma multidão, em meio a uma ação de grupo. O que podemos supor é que a possibilidade de gerenciar formas de coação (repertório comportamental) sem possibilidade de punição social (reforço negativo) possibilitou que ocorresse uma estereotipia do comportamento de coagir de maneira que o experimento fugisse ao controle. Agora, você consegue imaginar algum contexto similar em que outra pessoa tenha poder sobre reforçadores e gerenciamento de coações com pouco ou nenhuma possibilidade de ter seu comportamento de coagir punido? Resposta: lideres de seitas religiosas, supervisores e chefes em grandes empresas, etc.


Ron Jones não conseguia explicar a seus alunos como a população alemã alegava a necessidade de extermínio dos judeus. Não conseguindo explicar de maneira verbal, buscou então demonstrar por meio de um experimento social com seus alunos em 1967 como isso era possível. Jones começou seu experimento falando de um movimento chamado Terceira Onda e defendeu que a democracia era um modelo social que enfatizava a individualidade em demasia e isto era uma desvantagem social. Assim, começou a Terceira Onda, que também deu origem ao filme Die Welle. Acredito que a descrição detalhada possa dar lugar a audiência do filme que não é inteiramente fiel a história que o originou, mas causa impacto de mesmo modo. 



Segue uma imagem do jornal da escola sobre a Terceira Onda:


Bom, a questão é: se um professor conseguiu construir e motivar um movimento de modo coeso e organizado de tal maneira em cinco dias, o que outras organizações sociais baseadas no controle social rígido podem proporcionar? Vou responder a este questionamento com um exemplo...


Você já ouviu falar em Jonestown? Foi uma comunidade religiosa que cometeu suicídio coletivo em 1978, quando uma comitiva do governo foi averiguar se a comunidade tinham boas condições de vida e organização social que não atrapalhasse o governo. No primeiro dia, tudo foi tranquilo, mas a tragédia ocorreu em função de alguns membros da comunidade decidirem abandonar Jonestown e voltar com a comitiva. Sendo assim, vemos alguns exemplos de consequência de controle social muito rígido.


Bom, como não estivemos na comunidade, não podemos levar hipóteses muito precisas de o que levou a comunidade a se comportar de tal modo. Mas, o que estes exemplos tem em comum é o controle social rígido e o uso de coerção em suas relações sociais. Então, qual seria o motivo de uma filha matar os pais adotivos que não quiseram pagar o dizimo a uma igreja? (link) O que causaria tamanho controle comportamental de obediência as normas de uma agência de controle em contrapartida outra que, socialmente, deveria ter maior poder de controle sob o comportamento da população, como não matar? O que podemos nos questionar quanto a reportagem sobre os Gladiadores do Altar? (Lembrando que falo em tom de questionamento)

Ao vermos uma agência de controle se utilizando de contingências cerimoniais de outra agência (no caso rituais militares), não deveríamos parar e analisar que práticas culturais ela estaria criando e que consequências a curto e longo prazo podem causar a nossa comunidade? E mesmo que a organização paramilitar tenha apenas fins alegóricos, a Ku Klux Klan - KKK foi um grupo que desenvolveu, por fim, práticas racistas, independente de seu inicio ter o objetivo inicial de causar medo. Apesar de que, a partir da perspectiva epistemológica Análítico-Comportamental, um fato histórico não predizer outro, posto que não há uma causação fidedigna entre dois eventos históricos separados em um período longo. Apesar disto, podemos nos questionar sobre possíveis desdobramentos, tendo em vista a análise de contingências similares a outros contextos.


Infelizmente, careço de dados cientificamente que comprovem qualquer posição afirmativa. No atual estado da arte em que me encontro, o que posso fazer é levantar dados e experimentos e inferir de modo hipotético que há um contexto social que devemos nos preocupar. E para defender porque devemos nos preocupar, há o exemplo dos linchamentos dos "justiceiros", que tempos depois foram presos por tráfico de drogas (link). Temos o exemplo do linchamento da mulher acusada injustamente de ser bruxa, sem direito a defesa (link). Podemos nos questionar sobre as consequências das práticas culturais dos supostos "homens de bens", já que suas intenções não causam comportamento, suas práticas, apesar de poderem fazer parte das contingências que às mantêm.

Pode não haver uma relação de causação entre os eventos, mas a existência de tais eventos são a defesa do motivo pelo qual devemos nos preocupar com práticas culturais que façam apologia a violência ou uso de coação. Lembremos que um grupo de pessoas fardadas pode coagir, podem produzir violência não física... Lembremos das expulsões de umbandistas dos morros e favelas, intolerância religiosa também é um violência (link). Introduzir uma Metacontingência Cerimonial  militar poderia produzir comportamentos coercitivos? Acredito que estes sejam questionamentos válidos!


Não promovamos uma cultura coercitiva.
Promovamos uma cultura de paz!

2 comentários:

  1. Experimentos sociais também podem ser bem legais, aqui está um exemplo: http://www.virales.com.br/2015/09/29/uma-sala-cheia-de-baloes-e-uma-experiencia-social-que-pode-te-ensinar-uma-licao-valiosa/

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    1. Não é um experimento [científico] social... Mas achei divertido de fazer.

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