domingo, 12 de fevereiro de 2017

Senso Comum Acadêmico e suas Implicações para Análise do Comportamento


Uma das dificuldades para que Análise do Comportamento não alcance fácil adesão dentro e fora da Psicologia é devido uma fonte de controle sutil: senso comum. No entanto, eu vou discutir senso comum num sentido pouco usual...

É de conhecimento das pessoas que iniciaram seus estudos em Análise do Comportamento, que esta comunidade tenta aplicar o modelo de produção de conhecimento das ciências naturais ao objeto de estudo da psicologia comportamental. Uma das nossas principais influências históricas é adoção do modelo de estudo do fisiologista Pavlov. A partir deste evento, herdamos sua linguagem experimental, como controle, estímulo e resposta. Cada uma destas palavras já vem carregada de significados já estabelecidos pela longa história das ciências e, quando aplicadas a Análise do Comportamento, ganharam novo uso. Porém, o descompasso entre senso comum acadêmico e forma como é empregada pela AC por si só causa estranhamos...

Outra dificuldade que enfrentamos é o fato de que as premissas da AC destoam do conhecimento comum estabelecidos pelos avanços anteriores da ciência. Por exemplo, termos como força e energia dizem respeito a modelos de ciência que remetem a Newton e a descoberta da eletricidade.


A partir de Newton temos uma relação entre fenômenos de modo a-histórico. Uma força X do nada é aplicada sob um corpo Y que possibilita deslocamento Z. No entanto, é de compreensão contemporânea que o universo mantêm complexas relações entre eventos. Ou seja, um corpo não se move apenas porque uma força X foi aplicada por alguém, mas porque não houve resistência entre o atrito do objeto e anteparo, não havia magnetismo agindo ou gravidade. Há uma simplificação do fenômeno para fins didáticos, mas que geram o vício de crer que sempre há uma relação unilateral entre eventos e que há uma suposta força iniciadora. Em si tratando de psicologia, o senso comum acadêmico busca justificar a existência de uma força que ocorre espontaneamente e age sobre o organismo e que é preciso um eu iniciador que deseja mover este organismo no mundo.


A partir do modelo da eletricidade, houve a compreensão que era possível acumular energia em um objeto chamado baterias. Que era possível redistribuir esta energia e ela possibilitava o funcionamento de instrumentos tidos elétricos. Algo parecido ocorreu com a descoberta do uso hidráulico para mover estatuas. Explicava-se o movimento de corpos orgânicos devido à existência de fluidos vitais. Enfim, para algumas pessoas o modelo da eletricidade se aplica a psicologia e que existiriam problemas que é devido a excesso de energias, ou desgaste do aparelho devido intenso fluxo de energia. É muito comum dizer que o excesso de raiva faz com que adoecemos. Esta é uma frase comum da apropriação das explicações do modelo elétrico.

Para piorar, o atual modelo de ciência é o computacional. Este modelo preconiza que há uma separação entre organismo físico que processam dados e que há um organismo imaterial que codifica e transmite informações. Este modelo é tão bem sucedido em conquistar o senso comum que até a biologia adota-o por meio da transmissão de informações via genes... Para AC, esta separação entre hardware e software é um apego ao mentalismo mais arcaico que temos, uma separação total entre material orgânica e psiquismo. Não tratam o ser humano em sua totalidade, descarta-se a possibilidade de compreensão do homem de maneira materialista.


Bom, o que estes exemplos nos ensinam é que costumamos adotar vícios acadêmicos de conhecimentos datados, porém largamente difundidos no senso comum, para embasar nossas decisões teóricas. Sendo a AC destoante do senso comum acadêmico pré-estabelecido, sofremos baixa adesão, além de que não somos bons publicitários... Estas apropriações conceituais do senso comum não são absurdas pelo fato de que após adotarmos o modelo de conhecimento de AC, por vezes, temos dificuldade de abandonar uma noção a qual estamos acostumados por uma mais coerente. Quando estamos apegados ao modelo explicativo o qual fomos introduzidos, há resistência para mudarmos. Por exemplo, a psicologia skinneriana é a psicologia do comportamento operante, porém produções pós-skinnerianas já nos atentam para outros fenômenos de igual importância, como comportamentos adjuntivos e o retorno a importância dos respondentes para compreensão dos problemas humanos e cultura.


A literatura que inspirou a escrita deste textinho é da autora Mecca Chiesa, cujo livro se chama Behaviorismo Radical: a filosofia e a ciência. Apesar de ser um livro de pouca acessibilidade para aquisição, é possível encontrá-lo em bibliotecas mais antigas de Psicologia. Espero que o texto tenha alcançado seu objetivo de nos alertar para os sensos comuns acadêmicos a que somos reforçados socialmente a adotar. Que aprendamos a fazer auto-críticas e, assim, possamos avançar na compreensão do comportamento humano e não-humano.

Como diria Skinner: Não considere nenhuma prática como imutável. Mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente.

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