sexta-feira, 21 de março de 2014

Mentalismo - algumas pontuações


O mentalismo é um dos maiores, senão o maior, obstáculo que nós analistas do comportamento tentamos romper frente a sociedade ocidental. 

De modo resumido, o mentalismo pode ser compreendido como o uso de explicações circulares e/ou que não utiliza fenômenos naturais para explicar as causas de determinado comportamento. Apela-se para  o uso de entidades fictícias, que nossa cultura, com o passar de séculos, reforçou o uso e acredita-se que elas existam.

Além disso, o mentalismo é um recurso poético muito utilizado na literatura em geral e diversas outras atividades artísticas. Tendemos a escrever poesias falando sobre o amor que nos motiva sonhar, que a paixão nos faz cometer coisas loucas, etc. É socialmente aceito, reforçado e bonito!

Agora, vamos a alguns exemplos cotidiano sobre como o mentalismo tem uma face extremamente cruel, preconceituosa e negligente.

1. Determinado estudante não presta atenção nas aulas, logo tira notas baixas. Normalmente, diz-se que este aluno é desinteressado e que não vale a pena. Não tem força de vontade para estudar. Porém, pergunto, será que as aulas ministradas eram atraentes? Eram conteúdos apresentados de modo acessível e simples?

2. No Brasil existiu o movimento higienista, que pregava em artigos acadêmicos que as pessoas eram pobres por que eram inferiores, sem perseverança, cujas almas eram fracas, por que eram mestiças, negras, etc. Porém, em nossa história colonial sabemos que estas camadas da sociedade não conquistavam ascensão social por que não existiam condições que possibilitassem isso. Por exemplo, quando os negros foram libertos, eles não foram contratados para trabalhar como livres, foram excluídos e europeus foram trazidos e trabalharam como pessoas livres.

3. Joana chora por que está triste e Joana está triste por isso chora. Então, não há espaço para a história da pessoa que sofre, não há os contornos da vida singular de cada um. O mentalismo obscurece a vida do sujeito, a história e as condições pelas quais Joana passou até se comportar de modo depressivo.

Sendo assim, os mentalismos distanciam as relações com o mundo que levam as pessoas a sofrerem ou viverem situações desiguais. O Behaviorismo Radical é uma filosofia antimentalista por um posicionamento científico (trabalha-se com condições materiais que influenciam na vida das pessoas) e, mais que isso, por um posicionamento político (ao buscar explicar o comportamento humano a partir de condições materiais e não de condições metafísicas apartadas da realidade vivida da pessoa, nós conseguimos fugir a valorações e preconceitos como frases do tipo "é por que é mulher", "é por que é fraco de coração" ou "tá na cara que ele é um marginal e nunca poderá compor nossa sociedade", que são explicações pautadas em antigas argumentações religiosas ou filosóficas, como superioridade do sexo masculino, civilidade relacionada a europeus, etc.). Dito de outra forma, o mentalismo são explicações que dificultam a compreensão científica dos fatos, que desviam a atenção das contingências relacionadas com o problema para outras variáveis ou colocações verbais que não dizem respeito a este.

Ou seja, na Análise do Comportamento, não trabalhamos com o conceito de mente, psiquê ou alguma destas variações, pois o que nos interessa são as condições vividas que mantêm os problemas/sofrimentos ou que condições podem ser modificadas para resolver tais problemas/sofrimentos, e não a busca de entender entidades imateriais que não dizem nada sobre o cotidiano dos seres humanos.

2 comentários:

  1. E o mentalismo utilizado pelos cognitivistas? Eles não usam base cientifica para explicar fenômenos mentalistas?

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    1. Então, existe este embate epistemológico com os colegas cognitivistas. No entanto, o subterfúgio atual não é mais a mente e sim o cérebro, as químicas envolvidas, sinapses. Eles tem dado a estes fenômenos a condição causal.

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